No cenário atual, para Gilmar Stelo, advogado e fundador do Stelo Advogados, poucos temas geram tanto desconforto em escritórios de advocacia quanto discutir abertamente os erros éticos que colocam em risco a reputação construída ao longo de anos, e esse silêncio é justamente o que permite que pequenos deslizes se repitam sem correção.
Diante do exposto, vale olhar para os erros que mais aparecem na prática, não porque sejam exclusividade de profissionais despreparados, mas porque nascem de decisões que, isoladamente, parecem inofensivas e só revelam seu peso quando já causaram dano à relação com o cliente.
Sendo assim, reconhecer esses padrões é o primeiro passo para que um escritório proteja sua reputação antes que um problema ético se torne público e, nesse ponto, praticamente impossível de reverter sem desgaste para a relação com os clientes envolvidos.
Aceitar casos com conflito de interesse mal avaliado
O primeiro erro recorrente é aceitar um novo cliente sem checar, com cuidado suficiente, se existe conflito de interesse com outro caso já em andamento no escritório, especialmente em bancas menores, em que a verificação costuma ser feita de memória.
Gilmar Stelo destaca que esse tipo de falha raramente é intencional: surge da pressa em fechar um novo contrato sem consultar o histórico completo de clientes e partes envolvidas em processos anteriores, o que deveria ser etapa obrigatória antes de qualquer aceite formal.
Quando o conflito aparece depois, o dano já afeta dois lados ao mesmo tempo: o cliente original, que perde confiança na discrição do escritório, e o novo cliente, que descobre ter contratado um advogado com vínculo anterior ao adversário do próprio caso.
Prometer resultado que depende de decisão judicial
O segundo erro é garantir ao cliente, mesmo informalmente, um resultado favorável em um processo cujo desfecho depende da decisão de um juiz ou tribunal, criando uma expectativa que o próprio advogado não tem como controlar.
Segundo Gilmar Stelo, essa promessa costuma nascer da vontade genuína de tranquilizar o cliente, mas produz o efeito contrário quando o resultado não se confirma, já que o cliente associa a frustração não à imprevisibilidade do Judiciário, mas à palavra quebrada do advogado.

Substituir a promessa de resultado por uma explicação honesta sobre probabilidades e riscos do caso protege tanto o cliente, que decide com informação real, quanto o próprio advogado, que preserva a credibilidade mesmo quando o processo não termina como esperado.
Deixar de comunicar atrasos e mudanças no andamento do caso
O terceiro erro é manter o cliente sem informação por longos períodos, especialmente quando o processo enfrenta atraso ou reviravolta relevante, na expectativa de que o silêncio evite uma conversa desconfortável sobre o andamento do caso.
Na avaliação de Gilmar Stelo, esse silêncio costuma ser interpretado pelo cliente como descaso ou incompetência, mesmo quando o atraso tem causa alheia ao trabalho do advogado, como morosidade do próprio tribunal responsável por julgar o processo.
Comunicar más notícias com antecedência, explicando a causa e os próximos passos possíveis, preserva a confiança mesmo em cenários difíceis, enquanto o silêncio prolongado transforma qualquer atraso comum em motivo de reclamação formal contra o escritório.
Ignorar sinais de insatisfação até virarem reclamação pública
O quarto erro é deixar sinais pequenos de insatisfação sem resposta, como mensagens sem retorno ou reclamações informais, até que o cliente decide expor a experiência publicamente, em uma avaliação online ou nas redes sociais do escritório.
A maior parte das reclamações públicas nasce de um problema que já vinha sendo sinalizado de forma mais discreta, e que poderia ter sido resolvido internamente se tivesse recebido atenção antes de chegar a esse ponto tão avançado.
Criar um canal simples para que o cliente expresse insatisfação diretamente ao escritório, com resposta rápida e honesta, evita boa parte dessas exposições públicas e transforma um problema pontual em oportunidade de reconstruir a confiança antes que ela se perca de vez.