Poucos carros antigos brasileiros carregam uma origem tão dupla quanto o Willys Interlagos, esportivo lançado em 1961, que era, na essência, a versão nacional do francês Alpine A108, fabricada sob licença pela Willys-Overland do Brasil, então uma das maiores montadoras instaladas no país, empregando cerca de dez mil funcionários e produzindo seis mil veículos por mês em suas diferentes linhas. Esse tipo de acordo internacional permitia que fabricantes menores, sem recursos para desenvolver um projeto esportivo do zero, entrassem nesse segmento, aproveitando um desenho já validado em outro mercado, adaptado às condições e à mecânica disponíveis localmente, sem os altos custos de um desenvolvimento independente completo, explica Mário Augusto de Castro, colecionador de veículos antigos.
O Alpine A108 havia sido apresentado no Salão de Paris em 1957, fruto do trabalho de Jean Rédélé, fundador da Alpine, que buscava expandir a produção do modelo para outros países através de acordos de licenciamento com fabricantes locais em mercados como Espanha, Bulgária e México, além do Brasil, numa estratégia deliberada de crescimento internacional sem grandes investimentos de capital próprio. A Willys do Brasil, que já mantinha relações comerciais com a Renault na fabricação de outros modelos, foi escolhida como parceira ideal para produzir a versão brasileira do esportivo francês.
Fibra de vidro no lugar do aço: a adaptação do Interlagos ao Brasil
Diferente de uma simples montagem de peças importadas, o Interlagos foi produzido com carroceria em plástico reforçado com fibra de vidro, fabricada localmente, solução que dispensava o uso de prensas caras para chapas de aço, ideal para uma produção em escala pequena como a que a Willys planejava para o novo esportivo. O carro usava chassi tubular de aço e mecânica traseira de origem Renault Dauphine e Gordini, refrigerada a água, características herdadas diretamente do projeto francês original, e atingia cerca de 160 quilômetros por hora de velocidade máxima.
Mário Augusto de Castro destaca que essa adaptação de processo produtivo, trocando prensas de aço por moldes de fibra de vidro, era uma solução inteligente para viabilizar economicamente um esportivo de baixa escala no Brasil, já que reduzia drasticamente o investimento inicial necessário para iniciar a fabricação, sem comprometer a qualidade final do produto acabado nem a fidelidade ao desenho original assinado por Giovanni Michelotti.
Por que o carro recebeu o nome de um autódromo?
O nome Interlagos foi escolhido em homenagem ao autódromo paulistano do mesmo nome, reforçando a vocação esportiva que a Willys pretendia associar ao novo modelo desde seu lançamento, apresentado oficialmente no Salão do Automóvel de São Paulo em outubro de 1961. Essa escolha de nome, distinta da nomenclatura francesa original A108, ajudou a construir identidade própria para a versão brasileira do carro, diferenciando-o claramente de seus equivalentes produzidos em outros países licenciados.

Batizar o esportivo com o nome do circuito mais importante do país no automobilismo da época não era apenas uma escolha estética, mas uma declaração de intenções, comenta Mário Augusto de Castro. Isso tendo em vista que o carro precisaria provar seu valor competindo justamente nas pistas que inspiraram seu próprio nome, o que de fato viria a acontecer nos anos seguintes ao lançamento, consolidando a ligação entre o carro e o esporte automotivo nacional.
Vitórias nas pistas brasileiras que consolidaram o nome Interlagos
O departamento de competição da Willys, sediado em Santo Amaro, colecionou vitórias importantes em corridas nacionais ao volante do Interlagos, incluindo as 500 Milhas de Porto Alegre em 1963 e os 500 Quilômetros de Interlagos, além de conquistas internacionais como as 200 Milhas de Montevidéu, no Uruguai, em 1964. Pilotos que mais tarde se tornariam nomes conhecidos do automobilismo mundial passaram pelas pistas ao volante do pequeno esportivo brasileiro, consolidando ainda mais a reputação competitiva do modelo.
Esse tipo de sucesso esportivo consistente ajudou a consolidar o Interlagos como algo além de um simples carro licenciado de um projeto estrangeiro, transformando-o em símbolo de competência técnica nacional dentro do automobilismo brasileiro daquele período, mesmo com uma produção total que jamais ultrapassou a casa das oitocentas unidades ao longo de toda a sua existência comercial.
Um carro francês que o Brasil acabou tornando seu
Um projeto nascido para ser apenas mais uma licença de exportação da Alpine acabou se tornando, dentro do Brasil, algo bem maior do que isso: um nome ligado a vitórias, pilotos e pistas nacionais, a ponto de ofuscar em boa parte a própria origem francesa que lhe deu a carroceria e a mecânica original. Foram apenas 822 unidades fabricadas entre 1961 e 1966, mas essa produção enxuta, hoje, é justamente o que sustenta o valor do Interlagos entre colecionadores especializados em esportivos licenciados.
Mário Augusto de Castro nota que poucos carros licenciados no Brasil conseguiram essa mesma proeza de se tornar mais reconhecidos pela trajetória local do que pelo projeto que os originou, e talvez seja esse o maior legado do Interlagos: provar que um carro pode carregar duas nacionalidades ao mesmo tempo, uma no papel e outra na memória de quem o viu correr.